Renda do brasileiro cai e compromete consumo 

Rendimento médio caiu quase 9% entre março de 2021 e deste ano, segundo IBGE

Quem vai às compras no supermercado com R$ 100 sabe que o valor já não basta para comprar os mesmos produtos que se adquiria há dois anos. A renda do brasileiro tem reduzido e o consumo restringido muitas vezes a itens essenciais – como alimentação, por exemplo. Especialistas apontam que a perda do poder aquisitivo ocorre principalmente devido à inflação, à pandemia e os impactos globais na economia causados pelo conflito na Ucrânia.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a Pnad Contínua, mostram que o rendimento médio do brasileiro caiu quase 9% entre março de 2021 e deste ano. O levantamento foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo a pesquisa, o brasileiro recebia, em média, R$ 2.789 em março do ano passado, enquanto em 2022, o valor caiu para R$ 2.548. A redução entre os três primeiros meses de 2021 e o primeiro trimestre deste ano é de 8,7%.

A redução na renda do consumidor também compromete as contas pessoais e familiares. Segundo levantamento da Serasa e Opinion Box, as finanças de 34% da população foram reduzidas após dois anos de covid-19. C

Cresceu também o número de pessoas que afirmaram ter verificado aumento nas despesas. Saltou de metade, no ano passado, para 63% este ano.

No entanto, mesmo com o aumento de gastos e a queda da renda, os brasileiros voltaram a pagar as contas em dia. O percentual de pontualidade subiu de 46% em 2021 para 51% em 2022.

Em razão dos impactos financeiros, houve aumento no corte de gastos. Para passar a pandemia sem dívidas ou sem atrasar as contas, 51% dos entrevistados disseram ter cortado os gastos desnecessários, enquanto em 2021 eram 46% nessa situação.

Além disso, cálculos da Tullett Prebon Brasil divulgados na última segunda-feira (9) pelo jornal O Globo apontam que a desvalorização do salário mínimo durante o atual governo será de 1,7%.

Inflação e desemprego

Segundo a economista Lisiane Fonseca da Silva, a queda da renda do brasileiro resulta de dois fatores: a inflação e o desemprego causado pela pandemia, já que o excedente de mão de obra acaba por arrochar os salários. “À medida em que os preços aumentam e as pessoas não têm recomposição da renda na mesma proporção, empobrecem e tem de tomar decisões na escolha de consumo. Com a perda do poder aquisitivo por conta da inflação, as pessoas têm de fazer escolhas de consumo. Elas acabam gastando o necessário”, explica a professora de Economia na Universidade Feevale.

Consequência da pandemia, o aumento da taxa desemprego também é causa para a diminuição da renda, segundo a economista. “Gera excedente de mão de obra e, consequentemente, salários menores”, diz.

Lisiane destaca, ainda, o alto índice de informalidade no mercado de trabalho, o que também contribui, em geral, para remunerações menores. “Temos ainda essa situação do subemprego, com atividades laborais sem carteira assinada. Para garantir renda para subsistência, esses indivíduos optam pela informalidade, com remuneração mais baixa.”

Com a perspectiva de aumento da inflação nos próximos meses, a situação tende a se agravar, especialmente para quem recebe um salário mínimo. “Com remuneração pautada no salário mínimo, na medida em que ele é reajustado abaixo da inflação, haverá perda. O reajuste [do salário mínimo] tem de ser maior para recuperar, ou essa perda vai se prolongar”, adverte.

Guerra e pandemia

O ministro da Economia, Paulo Guedes, atribuiu a perda de salário mínimo à pandemia da Covid-19 e à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, iniciada no final de fevereiro com a invasão russa. A análise foi feita durante o lançamento da plataforma Monitor de Investimentos, em Brasília, na última segunda-feira (9).

 “Fomos atingidos por essas duas guerras, uma da comida e energia [devido à guerra na Ucrânia] e outra da crise sanitária. A verdade é que essa geração pagou pela guerra. Nós pagamos pela guerra. Nós fizemos sacrifício, ficamos sem aumento de salário, tivemos uma recuperação econômica forte. Não houve aumento de salário real porque durante uma guerra o normal é até perdas importantes, e nós estamos lutando para preservar pelo menos o salário mínimo, para preservar os empregos, para preservar a capacidade de investimento do país’, disse. 

Governo zera imposto de importação de alimentos

Para tentar conter a inflação, o governo federal anunciou na quarta-feira (11) que vai zerar a alíquota do imposto de importação de sete categorias de produtos alimentícios. A decisão foi tomada pelo Comitê-executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex), do Ministério da Economia.

“Sabemos que essas medidas não revertem a inflação, mas aumentam a contestabilidade dos mercados. Então, o produto que está começando a crescer muito de preço, diante da possibilidade maior de importação, os empresários pensam duas vezes antes de aumentar tanto o produto. Essa é a nossa lógica com esse instrumento”, disse, em entrevista coletiva, O o secretário-executivo da pasta, Marcelo Guaranys.

Em abril, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial, fechou em 1,06%. Foi o índice mais alto para um mês de abril desde 1996 (1,26%). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que calcula o IPCA, a inflação acumulada em 12 meses está em 12,13%.

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