Depressão atinge mais de 11% dos brasileiros, segundo pesquisa

Estudo revela percentual de pessoas com a doença maior do que o apontado pela OMS para o Brasil

Cada vez mais brasileiros sofrem de depressão, revela a Pesquisa Vigitel 2021, do Ministério da Saúde, segundo informou o Estadão. Conforme o levantamento, em média 11,3% dos brasileiros relatam diagnóstico médico da doença, número bem maior do que a média apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o Brasil, de 5,3%. Na média, diz o estudo, há mais pessoas no País com depressão do que com diabete.

Como a depressão é uma doença “silenciosa” e cercada de tabus, os casos ainda tendem a ser subnotificados. Para os especialistas, não há uma explicação única para o fenômeno. As demandas da vida contemporânea têm um impacto, bem como o aperfeiçoamento do diagnóstico e o excesso de diagnósticos. Além disso, a pandemia de covid também contribuiu para o aumento dos casos.

“O tempo em que a gente vive é ansiogênico (gerador de ansiedade) e, ao mesmo tempo, de percebermos nossa impotência diante de tantas coisas”, diz uma das coordenadoras da pesquisa, Teresa Cristina Kurimoto, da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para a psicóloga e professora do curso de Psicologia da Feevale Juliana Pureza, os números não surpreendem. “As psicopatologias, as doenças psicológicas vêm crescendo ao longo dos anos. E outros indicadores também vêm aumentando. Esses números já vinham aumentando mesmo antes da pandemia. A depressão já era considerada uma das doenças mais prevalentes no mundo, ¼ do mundo teve, tem ou terá depressão. É maior causa de afastamento do trabalho por saúde, à frente de doenças físicas. É umas das doenças mais incapacitantes do mundo”, explica Juliana, doutora em Psicologia Clínica pela PUC/RS.

Segundo a especialista, em 2017, a OMS já havia divulgado que o Brasil era um dos países com mais pessoas ansiosas do mundo (mais do que países em guerra) e campeão em uso de drogas psicoativas.

Para Juliana, a pandemia agravou a performance da doença no País, mas é necessário considerar outros fatores que desencadeiam a doença. “Precisamos ver questões como segurança, economia, as formas como nos organizamos no trabalho, isso não está descolado. E agora, com a pandemia regredindo, vamos poder olhar também para esses estressores. Essa é uma doença multifatorial. Vários fatores podem desencadear a depressão; para algumas pessoas, há o fator biológico, mas componentes estressores muito fortes também podem impactar”, avalia.

Além dos fatores socioeconômicos, outras situações podem desencadear a depressão. “A depressão é muito encontrada como comorbidade de outras doenças. Por outro lado, uma pessoa ansiosa por muito tempo acaba se deprimindo. Ela também surge em decorrência de outros fatores mentais. É uma doença de tanta magnitude que mexe com nossas relações, impacta finanças, trabalho e atividades cotidianas.”

Sintomas em três níveis

Episódios de depressão podem ser leves, moderados ou graves. Alguns sintomas a serem notados são tristeza persistente, humor deprimido (desânimo, baixa autoestima, sentimentos de inutilidade), perda de interesse em atividades antes apreciadas, alterações no apetite, ganho ou perda de peso súbita, insônia, excesso de sono e fadiga acentuada. 

Dependendo da avaliação médica, os tratamentos podem ser por psicoterapia ou medicamentosos, ou uma combinação dos dois. “A indicação de tratamento é principalmente psicoterápica, para casos mais leves. Para casos moderados e graves, há um tratamento combinado: terapia e tratamento com farmacologia”, explica a psicóloga Juliana Pureza.

Ela ressalta que é importante ficar atento à persistência dos sintomas. “É importante não ver só o ‘tem-não-tem’. É preciso que os sintomas sejam persistentes. Quando as experiencias de tristeza se prolongam, é um prato cheio para a sintomatologia”, observa.

Nesse sentido, Juliana destaca a busca por experiências que tragam sentido à vida como medida preventiva ao surgimento de sintomas depressivos. “É importante ficar atento à perda de prazer, ou seja: o que me dava prazer antes, agora não dá mais. É importante que a pessoa tenha experiências que tragam sentido à vida”.

Depressão grave gera situação incapacitante 

A hamburguense V.Q.S., 58 anos, moradora do bairro Canudos, teve diagnóstico de depressão há dez anos, obtido após uma consulta médica. “Fui consultar, sentia uma ‘bola’ na garganta e achava que estava com câncer na tireoide. Foi aí que a médica me perguntou: ‘tu não está com depressão?’ Fiz exames e, pelo resultado, estava tudo normal. Mas comecei a me tratar para depressão, tomo medicação e fiz terapia também”, conta.

Caso grave da doença, a manifestação da hamburguense – que atualmente vive somente na sua casa e deixou de trabalhar há três anos – evoluiu também síndrome do pânico, agravamento de casos de ansiedade.

“Eu só fico em casa mesmo, principalmente de dois anos para cá, quando perdi minha mãe e, depois, teve a pandemia. Há mais de dois anos só saio para ir ao médico. Nem no mercado eu vou; se for, eu passo mal, tenho que tomar um calmante. Não consigo fazer nada, tenho muita dor no corpo. Nem em casa consigo fazer as coisas direito”, lamenta.

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