Em entrevista, o presidente da Sicredi Pioneira, Tiago Schmidt, fala sobre a missão da cooperativa

“Por mais individuais que nós sejamos, fazemos parte de um coletivo”

Você sempre ressalta a missão da Sicredi de promover a economia local, dos municípios. Que ações são desenvolvidas nesse sentido?

Eu sempre reforço porque foi isso que me moveu a entrar no Sicredi. Eu nunca consegui enxergar uma pessoa como um indivíduo único na sociedade, por mais individuais que nós sejamos, fazemos parte de um coletivo. Eu sempre tive essa visão de que se eu conseguir vender um pavilhão industrial para uma empresa na minha região, ele não vai comprar só a parte de infraestrutura pesada da minha empresa, também vai comprar cimento, tijolo e areia no comércio local e vai empregar mão de obra local para construir. Depois que nós saímos e entregamos a obra pronta, aquela localidade nunca mais será a mesma, ali naquela indústria ou se for um ginásio de esportes, vai ter empregados, equipes treinando, vida social acontecendo que vai gerar economia. Quando você tem a decisão de pegar seus cem reais e ir ao supermercado para comprar produtos dele, bem ou mal, você está estimulando empresas da região a fornecerem para esse mercado. Quanto mais ele vender, mais o dono contratará pessoas que provavelmente são do bairro para trabalhar naquele mercado. 

Existe um dado do Banco Central atualizado de que 52% de todo dinheiro depositado em qualquer instituição financeira bancária em qualquer lugar do Brasil, ou seja, mais da metade desse recurso é canalizado para operações de crédito em São Paulo, Rio e Minas. Isso significa que a cada cem reais que eu coloco em um “bancão”, como chamamos, 52 reais estão indo para financiar o Sudeste. Como vamos querer riqueza e prosperidade na nossa região se depositamos nosso dinheiro que é suor do nosso trabalho em bancos que canalizam para fora da nossa região? O Édio (Édio Spier, ex-presidente da Sicredi Pioneira) dizia para depositar na cooperativa porque ao depositar nela, a cooperativa teria dinheiro para novas operações de crédito para pessoas que também são daqui. Por exemplo, provavelmente um pedreiro que construiu um pavilhão industrial e vai precisar trocar de carro, ele vai comprar em uma revenda daqui, então essa lógica do comércio local é muito forte para nós. 

Nós não somos um banco, somos 108 cooperativas espalhadas pelo Brasil que juntas formam um banco. Juntos, temos um banco e ele presta serviço para 108 cooperativas que repassam para cinco milhões e meio de associados. O papel da cooperativa é não deixar que o banco perca o seu propósito, nosso objetivo é justamente esse. Por exemplo, estar na Fimec estimulando empresas da nossa região a investir mais nela. 

Mas os investimentos não se resumem à região. No último clássico Flamengo x Vasco, por exemplo, era possível ver, na transmissão, placas de publicidade da Sicredi no Engenhão, sinal de inserção da empresa no mercado nacional? Como está essa inserção?

Isso se dá pela lógica do sistema, nós temos três serviços de marketing e mídia. Por exemplo, no Brasil o Sicredi tem 5,5 milhões de associados, 2 milhões deles estão no RS. Se pegarmos, por exemplo, o Brasil como um todo considerando todos os sistemas, existem 12 milhões de brasileiros que são sócios de uma cooperativa do ramo crédito, 2 milhões estão no Rio Grande do Sul, ou seja, a cada seis brasileiros associados, um está no Rio Grande do Sul. Essa placa do Engenhão com certeza é da Central do Paraná/São Paulo/Rio, que patrocina o Campeonato Carioca. Assim como em São Paulo, também patrocinamos o Campeonato Paulista. Nós temos essa governança local, regional e nacional, cada uma com seus orçamentos. O Sicredi é um sistema com presença nacional, mas com atuação local por meio de suas cooperativas.

Pelo terceiro ano consecutivo, a Sicredi é patrocinadora da Fimec. Qual a importância do setor para os negócios da cooperativa? Quais linhas de crédito e que soluções de câmbio a Sicredi oferece?

Viemos com um objetivo grande e subjetivo, sempre falamos que o maior concorrente do cooperativismo é o desconhecimento. É comprovado que onde existe uma cooperativa de crédito, o PIB é 5,6% maior do que nas cidades que não têm, o empreendedorismo é 15% maior. Para cada real de crédito de uma cooperativa, ela impacta em R$7,45 no PIB daquela localidade. Quando vamos para uma Fimec, antes de mais nada queremos nos tornar mais conhecidos, os nossos colaboradores não têm metas de produtos e serviços. Toda vez que um associado senta na frente de um colaborador do Sicredi – que, inclusive, também é sócio! -, é para entender o que ele precisa como pessoa física ou jurídica, entender o momento de vida daquela pessoa e dizer: “para você faz mais sentido um câmbio, então vamos te ajudar com o câmbio”. Se ele chega e fala que quer fazer previdência, nós fazemos um diagnóstico e dizemos: “não é o momento, você ainda tem um endividamento, vamos trabalhar na redução dele. Tem alguns outros produtos de renda e poupança, de segurança financeira na frente. E aí trabalhamos a sua previdência, vamos trabalhar uma cultura financeira em primeiro momento”. 

Temos uma consultoria com uma proposta de valor muito forte que é: produto certo na hora certa para associado certo e no canal que ele preferir. Não empurramos tudo para o canal digital, temos as agências, WhatsApp, e-mail e telefone, quem escolhe é o sócio. Existem movimentos que nós estimulamos da economia local, no comércio digital por exemplo, não é apenas porque o comércio é digital que ele precisa ser distante, eu posso comprar pela internet, mas pode ser por um comércio que é próximo.

Mas existem produtos que o computador ou o celular não vão te ensinar a fazer ou a investir. Você precisa sentar na frente de uma pessoa que te explique, por exemplo, aquele empresário que todos os dias paga 40 boletos pelo internet banking e fica mais tempo na empresa para cuidar do seu negócio, mas que quando resolve fazer um investimento de 3 ou 4 milhões em um maquinário, ele quer sentar na frente de uma pessoa e perguntar: qual é a melhor linha para esse financiamento? Qual o melhor prazo? Quais são as carências? Qual é a indexação de juros? Existem momentos e momentos e o nosso dever é identificar o melhor momento para cada associado.

Segundo o jornal Estado de São Paulo, no ano passado, o Pix retirou R$ 1,5 bilhão em receita dos maiores bancos listados na Bolsa de Valores brasileira: Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander. Apesar disso, o faturamento dessas instituições chegou a R$ 122 bilhões. O Pix preocupa?

Não, porque o Pix dentro do sistema financeiro é mais uma commodity do sistema, assim como era a nota promissória. E, quando foi inventado o cheque, ele assustou e todos deixaram de usar nota promissória. Existe a moeda e existem meios de pagamento de cada moeda. Assim como depois veio o vale-alimentação e vale-refeição em papel impresso, depois veio o cartão de crédito e débito. Hoje temos os vales no plástico também e hoje vemos o Pix. É só mais um meio de pagamento que, ao mesmo tempo que tira numerário de circulação de dentro das instituições financeiras, também formaliza muitos numerários que circulavam em uma economia informal e essa é uma das intenções do Banco Central. O papel do Banco Sicredi não é de ganhar dinheiro em cima do dinheiro que circula, mas é de estimular que as pessoas circulem com mais dinheiro e mais investimentos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

2 × 4 =