OPINIÃO – Precisamos falar sobre racismo no futebol

Postado por Ari Schneider  /   novembro 25, 2019  /   Postado em Esportes  /   Nenhum comentário

Crédito: Renan Silva Neves.

Na semana da Consciência Negra, é necessário deixar de lado as análises comuns relacionadas ao futebol. Precisamos falar sobre o racismo no universo do esporte mais praticado do planeta. Recentemente, Taison e Dentinho, do Shaktar (clube da Ucrânia) foram vítimas de racismo. No mesmo dia em que brasileiros sofriam no leste Europeu, um segurança do estádio Mineirão ouvia declarações com teor racista de torcedores do Atlético Mineiro. São fatos recentes. Deste mês. Um fora do Brasil. Outro aqui. Logo, o racismo é uma doença mundial.

No futebol, historicamente, os negros aceitaram ofensas. Atletas que estiveram em campo nos anos em períodos anteriores ao início dos anos 2000, ouviram muitas coisas. Aceitaram termos preconceituosos por viverem em uma sociedade racista e que condicionava os atos racistas como “provocações”. Nos últimos anos esta briga ficou ferrenha. O negro passou a não aceitar mais as “brincadeirinhas”. Passou a se impor. Passou a lutar com mais ênfase em um espaço que ainda é extremamente preconceituoso.

Se você discorda, analise o contexto que o futebol brasileiro carrega consigo. Excetuando dentro de campo, onde o negro sempre teve papel fundamental para o sucesso do futebol, em que outros espaços de um evento esportivo você vê negros? Na televisão, por exemplo, quando você viu um narrador de futebol negro? Na arbitragem, para citar outro exemplo. Faça um comparativo e veja quantos negros estiveram à frente do comando de uma partida. Você vai se lembrar de poucos, tenho certeza. Seu clube possui algum dirigente negro no seu alto escalão? E isso se deve especialmente a histórica dificuldade que o negro brasileiro enfrenta para alcançar posições de destaque. Vamos sair da caixa do futebol. No seu trabalho, você já foi chefiado por um negro? Na hierarquia de sua empresa, os negros ocupam quais posições de trabalho? O racismo velado que existe no Brasil está explícito em exemplos como este.

No Rio Grande do Sul, Estado que lidera (com sobras) o número de registros de casos de racismo, a situação é ainda mais delicada. No futebol, voltando ao centro desta coluna, são incontáveis casos de racismo. Tanto dentro de campo (como ocorreu com Jeuvânio, do Grêmio, que sofreu racismo do então zagueiro do Juventude Antônio Carlos) quanto fora (como do árbitro Márcio Chagas da Silva, que recebeu bananas em seu carro após apitar uma partida em Bento Gonçalves). É comum ouvir insultos racistas em jogos no interior gaúcho. E quem está escrevendo isto é um repórter que, em incontáveis partidas, é o único negro atrás das goleiras deste Estado. E que já denunciou ofensas racistas que recebeu.

Nesta quinta-feira (21), Taison foi punido por ter reagido às ofensas racistas na Ucrânia. O brasileiro mostrou o “dedo do meio” e chutou a bola em direção à torcida racista do Dínamo de Kiev. Como punição, ficará fora de uma partida do campeonato ucraniano. Ao Dínamo (clube que possui um histórico imenso de casos de racismo vindos de sua torcida), foi aplicada uma multa de cerca de R$ 90 mil e a sentença de um jogo com portões fechados. É o suficiente? Eu não vejo desta forma.

As autoridades precisam ser mais severas. No Brasil, racismo é crime inafiançável. Porém, ninguém fica preso. No futebol, o racismo raramente é punido. E a sensação de impunidade é latente. Recentemente, a FIFA definiu que a partida deve ser paralisada e até mesmo encerrada em casos de racismo. Será que isto realmente ocorrerá? Na Ucrânia, por exemplo, não foi assim. E o racismo no futebol segue ocorrendo. Como um atleta, parece que sempre está em campo. Será que vai mudar um dia?

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