A história de Capela de Santana contada por quem à fez

 

O principal personagem do movimento que resultou na emancipação do município de Capela de Santana chama-se Pedro Oddone Rodrigues da Silva. Hoje com 78 anos de idade, seu Oddone foi gerente na Caixa Econômica Federal por 26 anos. Em 1983, quando Capela ainda era o 4º distrito de São Sebastião do Caí, ele começou uma jornada que mais tarde o tornaria o 1º prefeito de Capela de Santana.

Conheça a história da emancipação de Capela de Santana, contada por quem a fez acontecer.

Pedro Oddone Rodrigues da Silva

Pedro Oddone Rodrigues da Silva:

“Em 1983 eu trabalhava na agência Vila Fernandes, em Canoas, mas vinha constantemente visitar a minha mãe, que era viúva, aqui em Capela de Santana. Na novena na Festa de Santa Ana, em julho daquele ano, conversando com minha mãe, ela se queixava: “No tempo do teu pai as coisas não eram assim. Tua irmã teve o carro arrombado e incendiado dentro da garagem. Até a imagem da nossa padroeira foi roubada. As ruas não têm luz, não têm policiamento. Nós estamos abandonados”. Aí então eu pensei que alguma coisa precisava ser feita. Juntamente de minha irmã mais velha, tive a ideia de fundar uma associação de amigos. Fui então buscar o apoio do padre Ernesto Zanatto, que permitiu o uso do microfone da capela, em meio à festa, para que eu anunciasse a ideia. Falei da situação e pedi para que os interessados me procurassem. Acabou tendo uma ótima receptividade. Convidei meu primo Laerte para ser o secretário da associação e marcamos a primeira reunião. Constituiu-se uma diretoria e registramos a entidade, tudo certinho. Passamos a visitar o prefeito de São Sebastião do Caí para cobrar melhorias. O governador do Estado na época era Jair Soares tinha um projeto chamado “Jair Móvel”, era um trailer que visitava os municípios e ouvia as demandas, a fim de buscar soluções. No último trimestre de 83 ele veio ao Caí. Nós nos reunimos e fomos pleitear algumas coisas para o nosso distrito. Pedíamos iluminação pública, linhas telefônicas, recuperação do asfalto, policiamento e outras demandas. Nós estávamos entusiasmados. A associação começava a ganhar corpo. A comunidade se associou, de fato. Pagava a mensalidade certinho. Comparecia aos eventos, reuniões e bailes que a gente promovia com frequência. Nesse sentido tudo estava indo muito bem. O problema é que não tínhamos poder político. Quando fazíamos uma reivindicação e nos apresentávamos como associação de amigos, éramos ignorados.”

“Em maio de 1985, eu ainda gerenciava a agência Vila Fernandes e o gerente da Caixa Econômica a nível estadual era Egon Schneck, vice-prefeito de São Sebastião do Caí. Um dia ele me ligou e perguntou se tínhamos vontade de emancipar Capela. Fique surpreso e disse que isso não fazia parte da nossa agenda, mas indaguei o porquê da pergunta. Ele então revelou que um grupo de São José do Hortêncio havia iniciado um movimento emancipacionista. Se eles conseguissem, Capela de Santana não conseguiria, pois o prefeito não toparia diminuir tanto o município. Então marcamos uma reunião na prefeitura de São Sebastião do Caí e fui buscar saber o que era necessário para emancipar o distrito. O prefeito era o doutor Bruno Cassel. Revelei a ele o desejo de lançar o movimento emancipatório, mas que isso precisava ser em comum acordo, sem atritos com o município mãe. E ele não se opôs. Apenas pediu que o movimento não englobasse a Vila Conceição. Voltando a Capela, conversei com algumas lideranças e com os membros da associação a respeito da ideia. Todos se mostraram favoráveis. Então no dia 11 de maio nos reunimos no pátio do Ginásio Almeida Ramos, embaixo de um pé de sinamão, com a presença dos dois vereadores que representavam o distrito, Professor Átila Ramos e Odilon Vieira, onde explanei a nossa proposta. Alguns acharam difícil, pois a renda do município era muito pequena. Era poucas indústrias instaladas em Capela, grande parte da população trabalhava em outros municípios. Então foi decidido que abriríamos a discussão para a comunidade. Preferimos saber a aceitação da ideia por parte de quem mais seria afetado com a mudança.

O ex-governador do Estado, Germano Rigotto, esteve na reunião do dia 25 de maio de 1985. Na época ele era deputado estadual.

 Mais de 300 pessoas estiveram na reunião, que aconteceu no salão paroquial, no dia 25 de maio. Estiveram presentes o então deputado Germano Rigotto e o doutor Arno Carrard, ao qual Capela de Santana deve uma homenagem digna do que ele fez pelo município, pois ele foi o responsável por toda a base jurídica do lançamento do movimento, nos orientou e nos ajudou em tudo. Na reunião, ficou decidida a comissão emancipacionista”.

“Constituída a comissão, era tinha que se fazer o processo emancipatório. Ele teve várias etapas. A primeira foi levar a ata desta reunião ao registro notariado para serem reconhecidas as assinaturas, no tabelionato de São Sebastião do Caí. Com tudo devidamente reconhecido, levamos à presidência da Assembleia Legislativa, para que fossemos autorizados a iniciar o movimento. Então, após iniciado o movimento, precisamos juntar um série de documentos, como número de casas, população, número de eleitores, aspectos gerais, tanto geográficos quanto culturais. Precisamos colher todo esse material. No início de 1987, conseguimos juntar tudo. E levamos à Assembleia. Teve o trâmite na comissão de assuntos municipais, onde o deputado Hélio Musskopf, que era o presidente dessa comissão na época, nos ajudou bastante, nos orientou e viu que era tudo possível. Após tramitado e aprovado na comissão, com a documentação toda correta, foi para votação em plenário. E também foi aprovado. Foram 98 distritos que tinham condições emancipacionistas e participaram desse processo. Então, no dia 20 de setembro de 1987, teve a votação da comunidade para saber se havia a concordância em emancipar Capela. O SIM teve mais de 80% dos votos, foi uma vitória esmagadora. E esses cerca de 20% de votos contrários, vinham, em sua maioria, de uma urna próxima a Vila Conceição. Então respeitamos os eleitores daquela região e modificamos o mapa. Fizemos voos panorâmicos com um especialista nesse tipo de levantamento e demarcação de área. Depois, por terra, percorremos tudo também. Mas enfim, o SIM ganhou.”

Arno Carrad foi uma figura muito importante no processo emancipatório de Capela de Santana.

 

“Aprovada de forma definitiva a criação do município, o governador emitiu o decreto, no dia 8 de dezembro de 1987. Capela de Santana era, finalmente, um município independente.”

“Criado o município, tínhamos outros problemas. Eleições e instalação do município. E nós não tínhamos absolutamente nada. Então começamos a organizar com os partidos existentes na época, PMDB, PDT e PSD, para buscarem os candidatos a prefeito e vereadores, e realizarmos as eleições. Nós, da comissão emancipacionista, pensávamos em unir todas as forças e fazer uma primeira eleição que não criasse dissidências, que entrássemos em acordo. Mas não deu certo. Tinha uma corrente que queria lançar o seu candidato. Outra corrente não queria determinado candidato e no fim nada se acertou. Tínhamos até o final de junho para formarmos as convenções partidárias e indicar os candidatos. O PMDB insistiu em um candidato próprio. Aí tinha o PDT e o PSD. Eu estava afastado da política, cuidava apenas da minha gerencia na Caixa e da minha família. Mas com todo envolvimento no movimento de emancipação, muitos aclamaram para que eu fosse candidato. Filiei-me então ao PDT. O PSD fechou a coligação para majoritária, com o José Lori da Silva como candidato a vice. Criamos a chapa. Fomos então reunir candidatos à vereança e correr atrás das propagandas. Colamos adesivos nos carros e tudo mais.”

“Mas logo no início das campanhas, foi feito um levantamento e se constatou que eu atingiria, se muito, 20% dos votos. O outro candidato estava disparado na frente. Nosso pessoal começou a ficar desanimado, pensando em desistir. Mas eu não ia chegar até ali e largar tudo. Então solicitei que todos os candidatos a vereador do PDT e do PSD marcassem agendas comigo, para irmos juntos visitar, uma por uma, as residências do município. E assim nós fizemos. Eu, minha esposa e um candidato a vereador. Tivemos muita receptividade. O pessoal nos acolheu. E caminhamos pra uma vitória muito bonita.”

“Após a vitória nas eleições, chegou a hora de instalar o município. Mas instalar o quê? Não tínhamos nada. São Sebastião do Caí deveria nos ter dado materiais e maquinário. Mas o que nos deram foram cinco funcionários, que eram do distrito de Capela. No dia 1º de janeiro de janeiro de 1989 foi a cerimônia de posse, com tudo meio improvisado, no salão Marlboro. Professor Laerte foi o mestre de cerimônia. O Dr. Arno Carrard mais uma vez nos dando apoio, dizendo como era e como não era. Teve a missa festiva e tudo mais. Conseguimos com o proprietário das terras onde era a Arrozeira Brasileira, uma sala onde ficava o escritório da empresa. Convidamos o padre Zanatto para ir até o prédio, pra uma solenidade de bênção do local. Ali instalamos a Prefeitura de Capela de Santana.”

 

O professor Léo Laerte de Jesus Oliveira foi outro personagem com papel fundamental na emancipação de Capela de Santana, como relatado pelo seu primo, seu Oddone. Além disso, teve fundamental participação na instalação da Prefeitura no município.

Léo Larte Oliveira de Jesus

Léo Larte Oliveira de Jesus

Léo Larte Oliveira de Jesus, 74 anos, é mais uma figura que ajuda a contar a história sobre a emancipação do munícipio de Capela de Santana. Graduado em história pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pós-graduado em administração de sistema escolar, sempre se viu envolvido com os movimentos que buscavam a autonomia do município. O professor conta que no dia 2 de janeiro, às 07h30min da manhã, logo que chegaram a prefeitura, as instalações eram as mais simples possíveis. Dispunham naquele momento apenas de um sofá velho corroído pelos cupins, uma mesa e nada além disso. E a pergunta que pairou naquele momento foi: “E agora, o que nós vamos fazer?”. A resposta dada pelo próprio prefeito foi simples e direta para a situação. Trabalhar! Aquela resposta foi muito importante para aqueles que estavam presentes, pois, logo se sentiram determinados a trabalhar para o bem do município. Mesmo com uma estrutura desfavorável, um pequeno numero de funcionários, algumas professoras e escolas em péssimo estado, o trabalho seguiu, mesmo que sem as devidas condições. “Quando o Oddone comprou as primeiras cadeiras, as primeiras mesas, eu pensei: ele está ficando louco! Como nós vamos pagar isso?”, diz Larte. Mas tudo acabou dando certo. As cadeiras e mesas foram pagas, a estrutura montada e até hoje ninguém esquece da administração do prefeito. Por tudo que foi construído ao longo de 4 anos de sua gestão, quando tudo começou do nada. Desde iluminação pública, atendimento à saúde, escolas, estradas e ruas conquistas que jamais serão esquecidas. Graças às lideranças, aquilo tudo que começou do nada e sem saber se iria dar certo, serviu para escrever a trajetória de Capela de Santana que poderá comemorar seus 31 anos com uma bela história.

Ilda Flores

Ilda Flores

Ilda Flores reside em Capela de Santana desde a criação da cidade. Ex-diretora da escola Estação Azevedo, teve participação fiel na emancipação do município. Ela conta que antes do município se desvincular de São Sebastião do Caí, o local era muito esquecido, o que motivou para que se fizesse sua independência. “Depois que o município veio à tona, para nós tudo melhorou. Porque dai nós tínhamos nossa prefeitura, foi de grande valia.” conta Ilda. Durante o plebiscito houve alguns não, pelo fato de acharem que Capela de Santana não seria autossuficiente e capaz de se manter por conta. Essa “resistência” partia por parte de pessoas mais antigas. No ano de 1992 Ilda se aposentou da escola, após longos anos como professora e diretora. Mas logo surgiu o convite do então prefeito, Oddone, para que ela assumisse a secretária da saúde. Ela conta que no começo tomou um susto, mas que aos poucos tudo foi tomando seu devido rumo e se ajeitando. “Quando a gente começou, não tinha nada, só tinha um posto, mas muito precário”, diz Ilda. Que com o desafio aceito, passou a procurar conhecimento através de colegas e fazer relação com municípios vizinhos para que fosse feita a estruturação da secretária. De ex-professora e diretora à secretaria da saúde, hoje Ilda ocupa seu tempo pintando quadros e exercendo seu hobby de pintora. Mais uma personalidade que traz na sua história as memórias de Capela de Santana.

 

 

Obra pintada pela Ilda e doada para a paróquia Santa Ana
A imagem que foi roubada, esta é uma réplica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Presidente do Legislativo Gilberto Machado foi membro atuante na emancipação de Capela de Santana

Vereador e presidente do legislativo Gilberto

Gilberto André Machado – Tio Déio

Gilberto André Machado é conhecido por quem mora em Capela de Santana como Tio Déio. É vereador ativo na câmara municipal e presidente da casa legislativa. Gilberto foi membro atuante na emancipação de Capela de Santana e se recorda da boa administração feita pelo antigo prefeito Pedro Oddone, o qual se empenhou e dedicou-se para que fosse concretizada a emancipação da cidade e feitas melhorias ao longo dos anos. Recorda-se que em seu tempo de escola, teve a satisfação de conhecer Léo Laerte Oliveira de Jesus, que na época era diretor da escola na qual Gilberto estudava. “É uma satisfação estar junto do senhor Pedro Oddone e Léo Larte de Oliveira que são pessoas muito integras na comunidade Santanense.”, diz Tio Déio com orgulho sobre os amigos e conterrâneos.

Paróquia Santa Ana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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